Véspera da cirurgia. Cirurgia essa que já devia ter acontecido a meses.
Minha mão tem alguns pólipos, e o médico quer retira-los. Ela tranquila, eu aflita.
Afinal, eu já vi historias parecidas com essas. Meu pai quando entrou na sala de cirurgia tambem estava "com um pequeno problema" e saiu de lá morto.
Da ultima cirurgia que minha mãe fez, quando eu tinha uns 11 anos, eu me lembro de ter passado maus bocados com ela. A começar que a maldita cirurgia demorou 10 horas, ela teve parada cardiaca e eu quase fiquei sem mãe. Tambem me lembro bem do ano que passou depois da cirurgia, das vezes em que cheguei do clube e ela estava passando mal, das brigas pra poder acompanha-la no hospital, das assinaturas me responsabilizando por ela, dos tantos soros que tive que trocar porque enfermeiras preguiçosas faziam pouco caso da menina de trancinhas que brigava com elas por causa da mãe.
Foi dificil. Eramos só nós duas. E eu era pequena. Mas grande o suficiente pra jogar uma mesa em cima de uma enfrmeira que respondeu minha mãe com ironia, grande o suficiente pra segurar o choro de medo de algo que pudesse acontecer com a unica pessoa que eu realmente tinha. Gigante pra segurar a barra de tudo aquilo.
Mas, superamos isso juntas.
Anos mais tarde veio meu pai. Com ele não consegui fazer nada disso. Ele não quis se cuidar, nem me deixou cuidar dele. Um belo dia, quando achava que ele estava viajando a trabalho, me ligaram de um hospital dizendo que ele estava internado. Sabado noite, baladinha a vista e uma ligação dessas? Caí na risada... meu pai era quase de ferro! Mas não foi trote...No outro dia de manhã ele estava melhor. De tarde surgiram uns "probleminhas", mas nada assustador. De noite o médico o leva pra sala de cirurgia mas "não era nada grave". Ele não saiu de lá vivo. E como assim não era nada grave, porra! Pra que mentir? Isso machuca, dixa trauma, e ele como médico deveria saber disso, merda!
E por tudo isso, esse negocio de cirurgia me deixa em pânico. Não quero ver minha mãe sofrendo e quase morrendo toda vez que viro as costas, muito menos que aconteça com ela o que aconteceu com meu pai. Meu pai foi, sinto falta dele, e ainda amo muito ele, mas minha mãe não. Minha mãe não pode, não dá.
E mesmo que seja uma microcirurgia, e todo aquele bla-bla-bla de médico bonzinho que não quer assustar, eu não me conformo. Cirurgia nunca é "simples". E eu não quero minha mãe correndo risco.
E daí eu já perdi o sono, não consegui mais comer, e já derramei mais lágrimas do que as Cataratas do Iguaçu derramam água. No fundo do meu coração algo me diz pra confiar, que tudo está bem, e que tudo vai dar certo. Mas a cada 5 minutos eu vejo o filminho das duas situações anteriores e me bate o medo. Impossivel não te-lo. Gato escaldado tem medo de agua fria, bem diz uma tia-véia minha.
Minha mãe é, basicmnte, a unica coisa concreta que eu tenho. E eu só sou o que sou por causa dela, pra agradar a ela. Eu só comecei a faculdade esse ano só pra ver a cara de orgulho dela quando eu chego da aula e reclamo de não ter esperado uns meses antes de me enfiar numa faculdade complicada de 5 anos. Eu só trabalho pra ela poder encher a boca pra dizer que tem uma filha que não quer depender dela, apesar dos esforços contínuos pra que eu fique só na barra da saia dela. Eu não arrumo namorado pra ela poder se vangloriar pras amigas de que tem uma filha "sossegada" enquanto as filhas das outras estão casando, grávidas ou indo embora de casa (mesmo porque eu me acostumei só com os affairs da vida... muito mais liberdade)... eu nunca chego em casa sem pelo menos uma bala de chocolate que ela tanto gosta, porque isso é importante pra ela. E eu nem me importo de deixar algumas coisas minhas de lado pra fazer as vontades dela. Eu sempre faço de tudo pra ela se sentir melhor da depressão e se preciso for, dou colo pra ela. Se algo acontece com ela eu me fodo. Nada vai ter sentido, porque tudo o que eu faço da minha vida tem em parte, algo a ver com ela.
É quase uma devoção, mas tambem não podia deixar de ser assim. Eu me lembro dela em quase todas as vezes que precisei de alguem. Eu me lembro dela toda vez que lembro que precisava conversar e não tinha com quem. Quando me lembro da minha infancia solitária e doente, me lembro dela junto comigo, brincando de boneca. Eu me lembro dela acordada de noite no hospital chorando do meu lado, eu me lembro dela torcendo por mim no festival de balé, eu me lembro dela me segurando forte no enterro do meu pai. E em quase tudo na minha vida, ela está ali. E por isso eu tenho tanto medo.
E talvez por isso confiar no médico que diz que "é coisa rápida, sem complicação", pra mim é a mesma coisa que dizer "alerta". Minha mãe é a única coisa que tenho e perde-la seria a pior coisa que poderia me acontecer. Mas, o mínimo que eu poderia fazer é pensar positivo e acreditar que tudo vai dar certo. E é o que tenho feito.
Aliás, é só o que tenho feito. Se confiaça e pensamento positivo funcionam, ela volta amanha mesmo pra casa. E é por isso que eu engulo o choro quando ela chega perto, que eu tento passar tranquilidade pra ela. Pode ser frescura, exagero, mas é porque não é com a mãe de quem pensa assim. Se fosse eu queria ver.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
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